quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Dia 7 - Caminho de Santiago - Los Arcos

Não deveria ter bebido tanto, obviamente.

Dormi muito mal, acordei o tempo todo com ânsia e tomei muita água, mas hoje cedo ao sair do albergue tomei um iboprofeno e um café sem açúcar pra aguentar a dor de cabeça.

Pensei muito sobre a forma como lido com meus excessos. Álcool principalmente, eu simplesmente perco a noção de limite e acabo passando mal. Claro que foi uma lição, eu devo mesmo pensar nisso mais a sério, porém a questão que me vem é: por quê?

Para mim beber me dá o "direito" de liberar algumas amarras que existem em mim. Todo o trabalho para parar de querer conquistar qualquer um que passe na minha frente desaparece, e eu fico tarado demais, falando merda e sendo inconveniente. No fundo eu apenas sou eu mesmo, faz parte da minha natureza isso, e beber só faz eu tirar minha capa social. 

E precisamos da capa social para construir nossa imagem perante a sociedade onde estamos inseridos. 

Além disso, beber dá uma dor de cabeça do caralho, e eu ODEIO ODEIO ODEIO a sensação da ressaca, é como se eu tivesse perdido a batalha contra o bom senso. Me sinto bem imbecil, porque nunca vale a pena.

E não é que ao sair da cidade o que é que eu encontro? Uma FONTE DE VINHO CACETE!

Meu, Deus só pode estar de sacanagem né? Tipo, não queria beber viado, agora bebe! E como tinha uma plaquinha dizendo que tinha que beber pra chegar bem em Santiago e blá blá blá, fiz conchinha com a mão e bebi um golinho. 

Agora imagina essa parada no Brasil? Vinho. Grátis. Uma fonte de vinho. Não durava nem dois dias, a galera ia lá pra passar a noite! Imagino eu contando essa história para a Wanessa! Que saudade de falar com meus amigos! É a única parte chata de ficar sem facebook e zap zap. Eu fico pensando em todos eles, queria contar pro Vinícius que eu começo a minha caminhada quase todo dia ao som de Ru Paul e faço dancinhas com meu bastão de caminhada, falar pro Daniel que já conheci 3 pessoas de Albacete e que o cara que eu conheci é igualzinho ao Rodrigo! Falar pra Wa o sucesso que ela ia fazer com os caras aqui, aquela linda!

Mas eu vou contar tudo isso, só esperar uns dias. Por enquanto, estou muito feliz de não estar acessando nada, realmente não faz falta, exceto por algumas exceções. Mas é importante explicar que minha abstinência é basicamente de face, zap e apps de pegação. Estou usando muito o app do caminho, o google maps, os apps de banco e a Netflix, só que com as péssimas conexões dos albergues fica difícil assistir qualquer coisa.

Hoje a caminhada foi tão legal. Depois da fonte de vinho, encontrei dois caras, um lituano e um irlandês, e caminhos juntos todos os quilômetros restantes, conversando! Conversei muito com o lituano, e é incrível como o ser humano, com todas as suas limitações, pode ser tão interessante! Quantas formas de viver a vida! O cara trabalha como ajudante de escultor, e me contou sua história, coisas sobre seu país, a Lituânia tinha o mesmo nível de vida da Dinamarca antes dos comunistas, sobre a vida conjugal e muito mais.

Agora estou no albergue em Los Arcos, sentando numa mesa numa sombra do jardim com alemães e um francês, falando francês. O Tim, um dos alemães, foi a primeira pessoa interessada em aprender algumas coisas em português. Socializar é um bom exercício, sem o celular ajuda bastante, se obrigar a se interessar pelo outro, pode ser difícil no começo, mas a gente se habitua e começa a ficar interessante!







Dia 6 - Caminho de Santiago - Estella

Primeira coisa que devo dizer ao meu favor: estou bêbado!

Isso se deve às pessoas impressionantes que encontramos pelo caminho. Hoje bebi muito mais do que estou acostumado, mas valeu a pena cada gole.

O caminho hoje foi de cerca de 21 quilômetros, só que depois das 10 horas, tudo fica um pouco difícil, e o sol é muito forte.

Mais um dia sem dores fortes, apenas alguns momentos em que o pé e a cintura pegaram um pouco, mas nada sério. Essa evolução do meu corpo me deixa feliz, e espero que continue até Santiago.

Hoje falei com muita gente sobre a minha homossexualidade, e isso me deixou muito feliz. As pessoas precisam conhecer os gays, precisam saber que somos iguais a qualquer um, que não somos um risco ou um estorvo. Tento sempre introduzir o assunto da forma mais suave possível, para que ninguém se choque, para não dar desculpas aos preconceitos.

Hoje não tive conversas filosóficas, caminhei durante 4 horas e meia sozinho, foi a primeira vez, e foi muito bom. Por quê? Porque a sensação de liberdade é muito maior, dá para sentir de verdade que o caminho é só seu. Minhas companhias hoje foram a Maria Bethânia, uma tocadora de cravo e uma playlist que o Danielzinho me fez.

Engraçado pensar agora. A minha vontade era casar e trazer ele pra cá. Será que eu deveria ter feito isso? Quando eu lembro dele me vem um amor tão forte, um sentimento tão bonito, que eu fico pensando muito. Ele é muito novo, mas acho que o maior obstáculo é realmente as fases da vida. Ou ao menos penso que é isso.

Encontrei o Giacomo e o Daniele hoje, dois italianos bem gente boa. Falamos de putaria e bebemos bastante juntos, foi bem legal!

Agora já passou das dez, vou dormir porque amanhã acordo cedo!

LM






quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Dia 5 - Caminho de Santiago - Puente de la Reina

Minhas costas não doeram hoje! No bolhas day again!

Foi até meio estranho, a dor nos ombros já estava virando uma companheira de final de caminhada. Estou surpreso e feliz, mas também acho que foi meio que sorte. Veremos.

O amanhecer hoje foi especialmente bonito, aos poucos a paisagem vai mudando, e como estou andando literalmente um passo de cada vez, é fácil ir notando a diferença. Da França até poucos quilômetros atrás havia uma floresta rica e densa, muitos bosques, muito verde. Aqui já vemos árvores menores, muitas coníferas, e uma vegetação mais rasteira. E muitos campos, muitos e muitos, todos ceifados, todos muito dourados, que compôem uma paisagem harmoniosa e perfeita para fotos.

A brasileira que encontrei ontem, Luciana, me fez companhia até o monte Alto del Perdon, ontem tem a escultura dos peregrinos, e tivemos uma conversa tão especial, onde pude repensar algumas coisas da minha vida, mas principalmenteo quanto é importante estar aberto a conhecer as pessoas, não apenas conquistar. O coração fica mais leve quando se conversa sem interesses, quando não sabe nem se iremos ver novamente aquela pessoa.  Por que isso não acontece com mais frequência? Uma sugestão pode ser o uso intensivo de celulares e tals, mas não apenas isso, pois tem relação igualmente com a vontade de se comunicar, a abertura para responder, e a curiosidade para perguntar.

O casal mais fofo do mundo, o Alessandro e a Austeja (com um pontinhos no e), apareceu lá no alto do monte, assim como o Tim, da Alemanha, e a Tania, da Austria. Comecei a descida do monte com o casal, e tivemos uma conversa sobre os motivos da curisidade, a motivação humana, para onde irá nos levar os avanços da inteligência artificial e outros temas tão legais e aleatórios que fizeram o tempo passar bem depressa e tranquilo.

Num certo momento, paramos na barraquinha de um garoto genial que oferecia limonada em troca de uma doação voluntária, e comecei a conversar com o Tim sob um sol que começava a ficar escaldante.

AQUI FAZ CALOR CACETE, FINALMENTE VOLTAMOS AO VERÃO!

Hoje fez 39 graus, apenas para constar.

O Tim tem 23 anos, é de Stutgart e está fazendo o caminho para dar uma pausa na rotina de estudos do final da faculdade de business. E ele me lembrou demais dos meus amigos de Águas de São Pedro! Eloá e Luiz (que continuam queridos até hoje), e tantos outros que fizeram minha vida lá na terra do nunca especial. O Tim é apenas um jovem que gosta de se divertir e beber, como qualquer outros, mas que também tem suas convicções, me contou que seus dois objetivos de vida são, ter sucesso e ser feliz.

TER SUCESSO, E SER FELIZ. TEM COMO SER MAIS SIMPLES?

Conversamos sobre o conceito tanto de sucesso quanto de felicidade, e concordamos num ponto de que é preciso levar seus projetos até o final. Desistir sempre do que almejamos significa desistir de nós mesmo. Engraçado que esse tema surgiu com a Luciana também, que é casada e mãe de dois filhos, mas está fazendo este caminho sozinha. Ela me contou que os 25 anos de casada trouxeram a ela a necessidade de ter sua individualidade respeitada, ao mesmo tempo que é preciso ter planos enquanto casal. O dela e do marido, conforme eles combinaram há muito tempo são: estudar, viajar, cuidar dos filhos, cuidar um do outro.

Individualidade e entrega. Antagonismos que resumem bem vários momentos da minha vida. É difícil pesar as duas coisas na balança, ainda mais difícil equilibrar  as duas coisas ao mesmo tempo.

Penso muito no meu primeiro namorado nesses dias, como foi importante essa primeira relação na minha vida, como me ensinou coisas boas e coisas ruins, me preparou para a vida a adulta, e isso é insubstituível. Conhecendo tantas pessoas mais novas, acabo me colocando também nessa idade, e fico feliz por todas as escolhas que fiz, pois foram feitas com o coração, e foram verdadeiras.

Estou num albergue de padres reformadores, paguei bem barato para estar aqui, 5 euros, e vou cozinhar meu jantar com o casal fofo e um italiano que apareceu. Vou fazer minha especialidade, tarte Tatin, só que dessa vez sem forno, porque não tem, então comprei uns biscoitos para quebrar e por por cima antes de virar, tipo um crumble invertido. Para comer vamos fazer tortilla e hamburguer, e tomar muito vinho!

Para guardar para mim e para os outros vou fazer uma avaliação dos lugares onde fiquei pelo caminho:

SJPP
Accueil Pelerin Pilgrins Hostel
Um lugar simples e bom, custou 10 euros, cama com luz e tomada individual, água quente e um café da manhã composto de torrada, manteiga, geléia e um café solúvel (portanto horrível). A vibe é bem legal. Muitas e muitas camas no mesmo quarto. Wi-fi médio.

Roscenvalles
Auberge Touristique Municipal
Hostel enorme, todo novinho, porém com pouca hospitalidade. Fique na cama de cima, bem difícil de subir, sem tomada ou luz. Cozinha super bem equipada mas a cidade não tem supermercado, portanto inútil. Lavanderia com duas holandesas fofas que lavaram e secaram a roupa de 4 pessoas por 7,5 euros. Paguei 12 euros e achei caro. Wi-fi horrível.

Larrasoaña
Hostel San Nicolas
É tipo uma casa adaptada, mas muito bem feito, tudo parecendo muito novo. Cama confortável com lençóis descartáveis. Ótimos banheiro e cozinha. Tem um mercado bem ao lado. Wi-fi horrível.

Dia 1: 37,00
Dia 2: 27,30
Dia 3: 25,00
Dia 4: 20,00
Dia 5: 23,50

LM





segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Dia 4 - Caminho de Santiago - Cizu Menor

Hoje tive uma conversa ótima comigo mesmo. Foram 3 tópicos:

- Como as pessoas julgam seus gostos e a forma como você ocupa seu tempo
- Como não ser um idiota ao escolher ter contato humano com alguém
- A forma complexa pela qual desenvolvemos nossos gostos e habilidades

Tudo na verdade está muito interligado. Começando pelas pessoas, como nós julgamos como o outro gasta seu tempo aqui na Terra! Ao nascer, ocupamos nosso tempo com chorar, comer, cagar e dormir, e ao longo do tempo vamos inventando novas formas de ocupar nossa existência, estudos, amor, trabalho, Justin Bieber, esse tipo de coisa. Mas a sociedade desenvolveu uma norma coletiva onde separa os ocupações "boas" das "ruins". Hoje em dia, por exemplo, passar muito tempo com o celular usando facebook ou um app de pegação é considerado ruim, agora passar noites em claro estudando medicina é considerado bom. Por quê? De verdade, a comparação pode parecer óbvia e exdrúxula, mas porque esse julgamento, cada um não deveria fazer da vida o que quer, em teoria o que lhe dá prazer? Quem somos nós para dizer o que é certo ou errado? Uma hipótese é a ideia capitalista de produtividade, de que o tempo deve ser aproveitando fazendo algo considerado útil, como estudar, etc. O ócio não criativo é o demônio, é o despropósito, é a inutilidade do tempo de vida.

Ah, vai pra puta que pariu com isso! A vida é minha cacete, e eu faço o que eu quiser!

Mas então por que enchem tanto o saco se eu ficar usando o celular? Bom, daí a gente entra em outra área, que é o contato humano. Você voluntariamente escolheu estar ao lado de alguém, e como assim não vai dar atenção para a pessoa? Que tipo de contato é esse? Nenhum problema em querer ficar sozinho na sua concha lendo, ouvindo música ou qualquer outra coisa, mas se estamos juntos, é porque nós dois decidimos, portanto o momento deve ser aproveitado a dois, isso entra no campo do respeito. Momento mea culpa, eu sou péssimo nisso, e vivem brigando, com toda a razão, por conta dessa falha. Mas como dizem, o primeiro passo para solucionar um problema, é reconhecê-lo.

Já a terceira parte é a mais inexplicável, afinal, como definir como nos formamos como ser pensante? Agora a noite o velhinho que cuida do albergue tocou violão e cantou para nós dentro da igreja que fica aqui em frente, e fiquei pensando como seria legal poder cantar e tocar também com essa facilidade de quem toca bem, de quem pode aprender aquilo. Comprei um violão tanto tempo atrás e sinto que tentei tão pouco. Será que eu realmente não consigo tocar? Qual o limite entre o esforço e a aptidão?

Conheci uma brasileira hoje, a Luciana, que abriu sem querer a minha mente de uma forma mais profunda para a questão de aproveitar o caminho, sem pensar tanto no objetivo da chegada. Vou aproveitar amanhã que estarei sem o meu companheiro mudo (que seguiu seu rumo assim que chegamos em Cizu Menor), e vou trabalhar mais essa questão de curtir melhor minha caminhada. O bom é que ainda tenho um mês para curtir isso.

Um mês. De caminhada. Caralho!

Como será que eu vou me sentir nesse tempo? Esses 3 dias de caminho já foram legais, cheios de descobertas, cheios de dores também, como será?

E voltar a usar o facebook, whatsapp, etc? Nossa, só fazem 3 dias que estou sem isso, mas me sinto um drogado na rebordosa de quem tenta sair do vício, aliviado, mas cheio de saudade.
Pamplona foi uma experiência interessante, uma saída do caminho para o esquema cidade grande, mercados, pessoas, movimento. A cidade em si é linda, muito bem cuidada, com aquelas lixeiras subterrâneas que são meu sonho para São Paulo. Tem umas muralhas que formam uma estrela, e uma catedral que tem que pagar para entrar, portanto não visitei. Acho um absurdo isso, uma palhaçada, ou transforma a igreja em museu e para de rezar missa lá dentro, ou deixa a porta do templo aberta para qualquer fiel poder entrar e rezar.

Estou hospedado num albergue mantido pela ordem de Malta, achei bem diferente, e a cruz vermelha na minha credencial de peregrino ficou maravilhosa! É um esquema meio de donativos, tirando uma tarifa básica de 6 euros, mas tem várias comidas e tals e é só deixar o quanto quiser, dessa forma, hoje foi o dia mais econômico da viagem!

Dia 1: 37,00
Dia 2: 27,30
Dia 3: 25,00
Dia 4: 20,00

Boa noite, bom caminho!


LM









domingo, 21 de agosto de 2016

Dia 3 - Caminho de Santiago - Larrasoaña

Meu, esse caminho é muito lindo!

Tipo, cenário de filme quase o tempo todo, é como se o Frodo fosse sair a qualquer momento de trás da árvore. A paisagem é bem diferente das quais eu estou acostumado, tem floresta, mas sem tanta variedade de plantas, é úmido, mas não te deixa encharcado, e os tons de verde, nossa, são muitos, e tão harmoniosos!

Ajudou muito o fato de que hoje tivemos poucas subidas, bom tempo e não fez frio! Foram 26km caminhados, a mesma distância do dia anterior, só que fiz em menos tempo, algo como 6 horas, não sei exatamente, não sou desses que fica cronometrando muito, e o meu corpo reagiu bem, NENHUMA BOLHA DAY 2! Mas uma dor nos ombros que começa a incomodar constantemente, e por isso eu fico tentando ajustar a mochila a cada 5 minutos para ver se encontro a posição ideal, que ainda não encontrei. A dor, apesar de constante, ainda está no nível do controlável, e como eu já joguei quase metade do que eu trouxe pelo caminho, não vejo muito aonde poderia reduzir o peso. Terminei o dia com quase nenhuma dor na batata da perna, o que me deixou bem feliz, pois aos poucos sinto meu corpo se acostumando com o ritmo de festa.

Um companheiro improvável apareceu em meu caminho hoje! Na verdade foi ontem, na hora de dormir, que apareceu um garoto espanhol para ocupar a cama de baixo. Hoje de manhã, sem eu convidar nem nada, ele estava caminhando ao meu lado, e me acompanhou O CAMINHO TODO! Só que com um detalhe, sem falar. Imagina eu com alguém que me dá respostas monossilábicas e não me pergunta absolutamente nada, durante 6 horas. Foi um aprendizado e tanto, metade do tempo fiquei ouvindo música, escutei um disco ótimo da Bethânia (Maricotinha ao vivo), um do Alex Ubago (calle illusión, que é meio que cansativo), e um do Ney (inclassificáveis, ótimo!). Na outra metade do tempo, fiquei apenas andando ao lado do meu companheiro silencioso, que em nenhum momento fez menção de se afastar de mim, me esperou fazer xixi, andou no meu ritmo sem pestanejar. Claro que pensei que ele estivesse me paquerando, e fiquei lutando comigo mesmo para parar de tentar conquistar o garoto, uma das coisas que mais tenho trabalhado nessa viagem, não ter a necessidade de encantar nem conquistar ninguém. Minha principal conquista deve ser de mim mesmo!

Aqueles momentos profundos do caminho também começaram a aparecer. Comecei a lembrar dos meus ex, com muito, muito carinho. Como eu amei esses três homens, como eles foram especiais e fundamentais para mim, e como eu sou feliz por tê-los em minha história. De verdade, amar é uma coisa boa, se entregar é uma experiência intensa, e eu tive sorte de poder amar e ser amado de todo coração. São pessoas assim que devem ser valorizadas na nossa vida, espero aprender isso mais a fundo para quando houver uma nova oportunidade.

Acontece que ao lembrar dos meus namorados, comecei a regredir para todos os meninos que eu já gostei intensamente, até voltar para a segunda série, para o William, e para as pouquíssimas lembranças que eu tenho dele. Isso me fez olhar para mim mesmo, enxerguei o Lucas com 8 anos, a imagem de uma foto 3x4 de cabelo arrepiado que tenho até hoje, e comecei a falar com ele, como se estivéssemos andando de mãos dadas pelo caminho. Lembrei de várias coisas que me passavam pela cabeça nessa idade, e tentei acalmar aquela criança, contando como será seu futuro, as coisas incríveis que ele irá viver, os países todos que ele vai visitar, e como a relação com a mamãe vai continuar intensa. A certo momento, um dos meus maiores medos da infância apareceu, a solidão e a falta de amigos. Na hora que a criança me falou sobre isso, imediatamente comecei a contar para ele sobre a Verônica, a Taíza, a Wanessa e o Tiago, meus quatro melhores amigos, e sobre muitos outros amigos queridos e verdadeiros que tenho hoje, disse a ele que na verdade é tudo muito normal, você não irá socializar com todo mundo, vai ficar muitas vezes isolado por inúmeros motivos (inclusive os internos), mas como todo mundo, você irá encontrar parceiros na vida, pessoas que simplesmente estarão sempre presentes, mesmo quando longe. Isso abriu um sorriso no rosto a criança, e ela se foi, ao menos por enquanto.

É incrível como essas coisas são importantes, fundamentais.

As vezes ao andar me dá uma sensação estranha de familiaridade com as paisagens. Se houverem outras vidas, acho que os antigos eu já fizeram esse caminho também.

Houveram sons de cachorro hoje, mas como eu estava acompanhado e muitos outros peregrinos à frente e atrás, além do Mirtô protetor, fiquei de boa. Um cachorrinho preto apareceu, com uma coleira feita de corrente, acho que ele era tipo um cocker, ele apenas passou e saiu correndo, desaparecendo. Lembrei do livro do Paulo Coelho, onde ele fala sobre um cachorro preto. Acho que vou reler o livro para me lembrar da história, mas também sei que se eu ler vai perder toda a magia, vamos acompanhar.

Hoje não foi um dia de muitos gastos (eba!), vamos às contas:

Dia 1: 37,00
Dia 2: 27,30
Dia 3: 25,00

Do passo afora

eu me encaminho adentro
O mundo externo e eu somos um só
Uma festa de passos e existência

LM

sábado, 20 de agosto de 2016

Caminho de Santiago - dia 2 - Roncesvalles

Dizem que o primeiro dia de caminhada é um dos mais difíceis de todo o caminho. E foi difícil pra caralho!

É difícil começar a escrever sobre o que aconteceu. Primeira coisa, as músicas que vêm à cabeça, comecei com o Hino à Independência, que me acompanhou praticamente pelas 2 horas iniciais de caminhada.

Parabéns ó brasileiros, ver contente a mãe gentil, já raiou a liberdade, no horizonte do Brasil (parapá parapapá!)

Depois passamos pelos clássicos "estava a velha a fiar" e aquela música chata dos quilotes.

Acho que isso se deve ao fato de eu estar com saudades do meu país. Não adianta ser durão, fazer a linha internacional nem nada disso, eu sinto falta e pronto, não é racional, não chega nem a ser saudade, é apenas a falta do português, de saber como as coisas funcionam, esse tipo de coisa. E é bom sentir falta, é bom dar valor ao que se tem, mesmo que meus planos agora sejam de ficar longe por um tempo.

Após deixar o albergue, passei pela frente da igreja, que estava aberta, e vi que, na portinha onde tinha deixado coisas para doar ontem, ainda havia a minha trouxinha. Então a peguei, entrei na igreja, deixei num banco e falei para os velhinhos que acendiam as primeiras velas do dia: uma pequena doação para os pobres, um bom dia para vocês! Fiz o sinal da cruz e saí, feliz da vida.

O desapego é uma das lições mais importantes mesmo desse primeiro mês. Nada vale a pena, nada merece mais do que um pouco de nós. O que não tem serventia, o que não é usado, deve ser descartado, simples assim. Ontem eu tinha a necessidade real de ter um apartamento, televisão, geladeira boa e sempre cheia, portanto os mantinha comigo, hoje eu preciso da minha mochila o mais leve possível, roupas que sequem rápido e alguns produtos de higiene, então os tenho. Mudamos, e conosco nossas necessidades, quanto tempo se passa na vida sem se refletir de verdade sobre isso. Os objetos quando vazios de significado e utilidade são apenas mais uma forma de prisão, de opressão.

A subida é longa, tipo longa mesmo, foram praticamente os primeiros 16km (!), com trechos bem inclinados.

PHODA

E para começar o caminho de uma forma especial, sem ironias, foi um dia frio, em alguns trechos
menos de 10 graus, com chuva e com neblina. Dá para imaginar? Uma subida do cão, com frio e chuva e sem enxergar quase nada, com um mochilão pesado nas costas? Então por que eu achei o dia realmente bom? Porque assim é a vida, ora bolas! A vida é expectativa, queremos um começo de caminho feliz e ensolarado, com as flores e os passarinhos nos incentivando a cada passo, novos amigos aparecendo para caminhar ao seu lado e tudo indo bem. Só que a vida real é o desafio, a superação de medos, limites, e a consequência dos nossos atos.

Pois apesar do tempo não estar de acordo com a expectativa, o dia foi realmente muito lindo e especial. No começo da manhã teve um período sem chuva, e as nuvens se abriram um pouco para me presentear com uma vista linda, uma paisagem pastoral com vacas e ovelhas que me fez pensar como a natureza realmente é perfeita, como os animais, com sua ignorância da morte, vivem apenas o dia, encarando chuva e frio para comer e se manter vivo. É uma força muito forte e sábia essa.

Após as duas primeiras horas de caminhada surge uma casinha na estrada, num lugar chamado Orisson. Tomei um café e comi uma madalena. Uma pequena despedida da França que logo mais iria acabar numa fronteira tênue com a Espanha. Nesse lugar, vários outros peregrinos resolveram parar para uma pausa maior, tirar os sapatos, aliviar um pouco a tensão da primeira subida. Para mim essa tática não funciona, pois preciso de uma recompensa ao final do grande esforço, e para mim essa recompensa é o descanso e a comida, portanto se eu fizer pausas longas e me sentir relaxado, minha cabeça processa aquilo como o final da missão, e depois para levantar e continuar fica difícil.

Isso me leva a uma questão que acho que 100% dos peregrinos escrevem: ESSA PORRA NÃO É UMA CORRIDA! Ah, mas como dizer para nossa mente, acostumada a querer ser melhor, mais rápida, mais forte que a dos coleguinhas, que cada um tem seu ritmo, e que o caminho é pessoal, cada um faz o seu? No meu caso, eu preciso me lembrar em voz alta e com frequência disso, e dessa forma criei um ritmo de caminhada constante, que não me deixou esgotado em nenhum momento do dia, e que me fez chegar bem em Roncesvalles, num tempo também muito bom, cerca de 7 horas.

Mas é claro que eu estou destruído. Dor nos ombros e na batata da perna estão pegando mais. Fiz alongamento após o banho, assim como uma massagem nos pés, que obviamente estão cansados. Mas também tenho notícias boas, sem bolhas e sem dores fortes no joelho! Justamente o que me preocupava mais.

Dei um nome para o meu bastão: Mirtô. Obrigado vovô, por tudo, te amo.

O Mirtô me ajudou muito hoje, fazendo com que eu não forçasse demais meus joelhos e me dando equilíbrio quando eu precisava. Ainda estou aprendendo a usá-lo, e observar os outros peregrinos ajuda bastante, já aprendi a encaixar ele meio inclinadinho na terra, e também a usar a fita que vem na manopla para fixar minha mão e ajudar a distribuir a força. Foi um bom começo de amizade.

Tem tantas senhoras nesse caminho! Muitas com certeza acima dos 50 anos, e elas vão que vão, não estão nem aí, um passinho atrás do outro, muitas vezes na minha frente! (Lucas, não é uma competição... ok ok)

Nos últimos quilômetros de caminhada passamos por uma floresta mágica tão linda, tão verde, e a névoa deixou tudo aquilo ainda mais incrível. Teve uma hora em que eu estava sozinho e parei. Não conseguia ver mais de 10 metros a frente ou atrás, e ao deixar de caminhar parou a "música" produzida pelo meu corpo e mochila, o que me deixou envolvido pelo silêncio de floresta, onde se consegue ouvir as folhas, o chão, e a si mesmo. Foi algo que mal durou um minuto, mas foi especial.

O albergue é bem grande e bem moderno, o chuveiro é DELICIOOOOOOOOOOSSSSSSSSSSSSOOOOOOOOOOOOOOOOO, e eu fui certeiro, cheguei, deixei as coisas no armário e fui logo tomar banho antes de formar fila. A cama também é bem confortável, só não tem tomadas ou luzes individuais, o wi-fi também não pega aqui, mas como eu estou facebookfree essa semana, não faz muita diferença. O preço também foi um pouco mais caro do que eu imaginava, 12 euros.

Vou fazer uma tabelinha de gastos para ver o quanto vai sair o caminho todo, contando a partir dos meus gastos em SJPP

Dia 1: 37
Dia 2: 27,30

O jantar foi muito bom, não pela comida, que foi preparada com desrespeito (serviram iogurte de sobremesa), mas pela mesa cheia de gente legal, conversamos muito, falei mais do que devia após uns copos de vinho, e fomos os últimos a sair. Acho que dessa forma que se vão formando os amigos do caminho. Vamos ver se isso dura!

LM





sexta-feira, 19 de agosto de 2016

CAMINHO DE SANTIAGO - DIA 1 - SAINT JEAN PIED DE PORT

A palavra é: CHEGUEI!

Quanto tempo, quantos anos, quanta expectativa de um dia fazer esse caminho. No final, ele tinha virado mais um sonho adormecido dentro de mim, uma lembrança carinhosa da época que eu era moleque e não me importava de sonhar sempre um pouco mais.

O quê tenho me perguntado nos últimos dias é justamente qual é a minha motivação para querer andar tantos e tantos quilômetros a pé? Tenho algumas pistas, primeiro o livro do Paulo Coelho, que li em Uberaba há uns 16 anos atrás. A vibe de mago e peregrino, a minhas experiências tentando reproduzir os rituais que ele fazia no livro lá na casa da vó Lídia, rodeado de coca cola e pão de queijo, numa época em que eu mal tinha noção do que era Espanha. Depois, numa noite na casa do meu irmão, nas famosas sextas-feiras após a meia noite, quando só se pagava um pulso pela internet, fui digitando aleatoriamente paulocoelho.com, paulocoelho.net.br, até acertar (num mundo sem google) e enviar uma mensagem para ele falando da minha vontade de fazer o caminho, pois havia lido que ele bancava viagens de peregrinos pobres que nem eu. No final, recebi um email assinado pelo escritor (vai saber...) me desejando força e um bom caminho. Tomei aquilo como um incentivo e continuei vivendo a minha vida.

Para mim, deixar Botucatu e vir para a Espanha tinha apenas um significado, LIBERDADE. Bullyng na escola, ausência de pai e mãe (hoje não mais!), falta de grana, falta de perspectiva, eu me sentia realmente dentro de uma prisão, sem direito a entrar na festa que para mim faziam parte tantos outros. O caminho naquela época me parecia a forma de evoluir, encontrar valor em mim mesmo e finalmente dar certo na vida, deixando para trás meus problemas, minha família ausente, tudo o que me fazia mal.

COMO EU ERA INGÊNUO! Mas como é grande o carinho que sinto por aquele adolescente tão complicado que eu era, tão cheio de razão, tão solitário mas que no final nunca perdeu a esperança. Afinal, hoje estou aqui!

Depois que eu cresci e as coisas finalmente foram acontecendo, viagens, faculdade, casamento, mudança para a Europa, mais viagens, separação, recomeço, sucesso profissional, apartamento próprio, até finalmente jogar tudo para o alto, vender tudo e começar a dar a volta ao mundo, durante todos esses momentos o caminho ficou adormecido, como um sonho mesmo, uma ideia infantil que ficara apenas no campo dos planos.

E como mudou? Justamente ao pensar em um ano inteiro viajando pelo mundo, com o propósito de me encontrar, de descobrir para onde eu quero guiar a minha vida a partir de agora, o caminho veio como um trem de encontro à uma parede de pedra. BUMMMMMMM! Óbvio, depois de tanto tempo, era no caminho que eu iria conseguir ter um momento a sós comigo mesmo que há tanto eu almejo. E dessa forma coloquei o caminho na etapa número dois da minha viagem, após um primeiro mês de viagem e trabalho ao sol no sul da Itália, para fazer meu corpo começar a funcionar melhor.

Tudo isso me trouxe até onde estou hoje, Saint Jean Pied de Port, na fronteira sul da França com a Espanha, etapa inicial de uma das várias possibilidades de se chegar a Santiago, conhecido como Caminho Francês (apesar de incluir apenas 1 cidade na França).

Assim como todos os peregrinos que vejo ao meu redor, também estou excitado, ansioso, querendo me jogar na estrada e começar logo minha caminhada. Cheguei aqui em SJPP vindo de Bayone, que fica a apenas uma hora de trem daqui, aliás, o trem percorre uma paisagem tão linda que me fez lembrar da noviça rebelde. A cidade tem uma energia toda especial, e vive em função dos peregrinos e dos turistas que passam por aqui apenas para ver os peregrinos! E também as muralhas da cidade, e os prédios e o clima de lugarzinho medieval que reina por aqui, SJPP é patrimônio mundial pela Unesco, e sinceramente, merece.

Nesse primeiro dia tive contato com dois caras, um novinho italiano de 18 anos, que não conseguiu se segurar e partiu em caminhada ainda agora de tarde, provavelmente para dormir na barraca no meio dos Pirineus, e um sueco que veio andando... DA SUÉCIA! Ele já percorreu 2700km e vai até Finisterre, que fica a 90km além de Santiago. Conversei brevemente com alguns outros peregrinos, mas nenhum contato mais forte além desses.

Consegui vaga no albergue municipal, o mais baratinho e mais tradicional eu acho, paguei 10 euros pela cama e estou surpreso por ser um lugar bem limpo, com banheiros com muita água quente e camas confortáveis com tomada! Vamos ver como serão os próximos.

Hoje o clima é de aventura, de desconhecido, de frio na barriga sem saber se o corpo aguenta. Joguei tanta coisa fora desde Assis, simplesmente estou deixando o que não uso pelo caminho. Hoje foi a vez de roupas que eu gostava muito, mas que já usei bastante e que não farão falta pelo caminho. Minha mochila está com 12kg, e sei que preciso fazer ela pesar o menos possível para atingir meu objetivo de caminhada sem me martirizar demais. E outra coisa, POR QUE PRECISAMOS DE TANTO? Por que nos obrigamos a ter essa tralha toda que carregamos nas costas durante toda nossa vida, qual o sentido disso?

Isso me leva a uma outra pergunta interessante: do que precisamos de verdade? Do que eu preciso na minha vida?

Agora vou jantar e descansar, bonsoir!

LM