sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Dia 21 - Caminho de Santiago - Foncebadon

Gente, quanta tristeza hein, sai fora!

Foi ótimo ter escrito sobre isso ontem, uns poucos minutos depois de escrever, estava dançando ila ilariê da Xuxa com a Dani e a Val para o Héctor, chorando de dar risada!

"vamos lá, subindo, mais alto!"

Obviamente a vida é feita de momentos difíceis, e acredito que precisamos mesmo viver nossas dores com a mesma intensidade com que vivemos as alegrias. A dor está presente por algum motivo, e tem com certeza uma função, por isso não deve ser ignorada, deve ser sentida, compreendida e vivida, para que essa compreensão possa ensinar e cumprir seu dever. Afastar a dor, a tristeza, é jogar sujeira para debaixo do tapete, é postergar algo que é necessário.

Hoje o caminho foi INCRÍVEL DE LINDO, e apesar dos seus 26km, não senti dores e cheguei me sentido muito bem ao povoado, e isso após subir uma montanha de mais de 400 metros de altura!

Também aconteceu algo importante hoje, algo do qual quero me lembrar depois (e é por isso que escrevo esse diário, é bom lembrar). Geralmente caminho sempre com o Héctor, conversando, ouvindo música, etc. Porém, nos momentos de subida temos ritmos diferentes, e ele acaba indo na frente. Hoje aconteceu igual, e quando estava sozinho coloquei para tocar o albúm "As Quatro Estações", do Legião Urbana, um disco que eu gosto muito, e que fazia muitos anos que não ouvia inteiro, se duvidar a última vez que ouvi foi em LP! 

A montanha de hoje era bem diferente do cenário dos últimos tempos, agora temos muitas árvores, uma vegetação mais variada e rica, plantas e flores rasteiras que mesclam verde, roxo e dourado à paisagem, e uma série de pinheiros baixos intercalados por samambaias, amoras, e diversas outras plantas, um cenário muito bonito! A subida, apesar de longa, não era muito inclinada, e pude ir observando o lindo cenário ao meu redor. Cantei forte vários trechos das músicas, curto o albúm todo, me lembra minha adolescência, os quartos das diversas casas onde morei, minha família, meus amigos. Pois bem, quando começou a tocar Monte Castelo eu pensei: nossa, que música linda, como eu gosto dela! De repente, sem prévio aviso, sem explicação, como um tapa na cara do nada, comecei a chorar. Começou mais como uma comoção, sem lágrimas, apenas aquele aperto no peito gostoso de emoção. No entanto, enquanto a música tocava, olhei para a paisagem e me dei conta da onde eu estava, e do que eu estava fazendo. Estou na Espanha, realizando um dos meus sonhos. Essa compreensão do poder da força de vontade, e de toda a ajuda que tive para poder ter a vida que eu tenho hoje me emocionaram, e mais do que isso, meu avô Morato estava comigo ali, mostrando para mim o quanto vale a pena ser forte e lutar, o quanto a vida pode ser INCRÍVEL, plena, cheia de coisas boas. Nessa hora já rolavam muitas lágrimas, quentes, pesadas, cheias de alegria e agradecimento. Cantei mais forte, murmurei muitas vezes obrigado, até o final da música.

Depois passou, me recompus e continuei a subir, tranquilamente, no meu ritmo, com essa certeza dentro de mim de que estou no Caminho certo.

LM 







quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Dia 20 - Caminho de Santiago - Astorga

Hoje eu me senti triste.

Não tem muito como explicar, não tem motivo nem razão, de repente alguma coisa dentro de mim me faz sentir um aperto no peito, um nó no estômago e não consigo sorrir mais, as pessoas ficam meio apagadas, cinzentas, e fico com um vazio grande dentro de mim.

Nada aconteceu, as pessoas foram legais comigo, meu corpo doeu como todos os dias, um pouco mais o calcanhar, dei risada, tomei café, comi, tudo como sempre, tudo que tem me feito feliz durante o Caminho.

Só que essa tristeza costuma não ter explicação mesmo. Eu sinto ela há tanto tempo, que é como receber a visita de um amigo dentro de mim. Antes ela vinha com mais frequência, mas já fazia tanto tempo que eu quase não a reconheci.

É uma desesperança, um choro contido, uma vontade de desaparecer, de que nada tem sentido e que a vida não vale a pena, que apenas preencho meu tempo antes de morrer. Não tenho sentido, nada do que faço tem sentido, estou aqui para nada, e ninguém que amo vai poder estar comigo para sempre.

Meu dinheiro, meu trabalho, tudo isso eu deixei para trás, e não me arrependo, mas com isso veio esse abismo na minha frente. O quê eu vou fazer da minha vida? Quantos dias eu vou caminhar a troco de nada antes de descobrir o que eu quero? Por quê tive que deixar tudo para me sentir sozinho?

As pessoas, as amizades, tudo isso me parece, quando estou triste como hoje, uma perda de tempo, uma porção de frases feitas, sorrisos prontos e acenos de mão. Sei que estou sendo tremendamente injusto, e que amanhã já não será assim, mas é como me sinto hoje.

Meus dois calcanhares tem bolhas bem doloridas, tenho medo que elas piorem. Tenho mais 10-11 dias de Caminho, e quero chegar sem muito sofrimento à Santiago.

Só de escrever e botar para fora essa bola de pelos que estava entalada em minha garganta já me fez sentir melhor, mais leve, mais agradecido por estar vivo hoje, e poder duvidar de tudo livremente.

LM

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Dia 18 e 19 - Caminho de Santiago - Léon e San Nicolas del Camino

E a grande memória de ontem foi: 


ALEX KID!


Enquanto eu e o Héctor conversávamos durante os longos, longuíssimos 37km que caminhamos, surgiu o assunto vídeo game e descobrimos que gostávamos do Alex Kid! É engraçado ver como pessoas que nasceram na mesma época, porém em lugares completamente distintos do planeta podem ter tantas experiências em comum.



Lembrei também do Diego, que vendeu o master system para comprar sua primeira guitarra. Como eu odiei meu irmão por isso. Como eu era besta. Se eu soubesse o quanto a guitarra faria meu irmão feliz, teria dado um abraço no Alex Kid e deixado ele ir sem problemas.

O dia em Léon foi um pouco estranho. Acabei incumbido de decidir onde ficaríamos, e escolhi um albergue ótimo, porém super longe do centro. As brasileiras que estão caminhando com a gente, Dani e Val, optaram por ir mais para perto do centro, e ficamos eu, os espanhóis e um italiano no quarto. O dia foi estranho porque estar em grupo acaba diluindo um pouco da sua própria personalidade. Com algumas pessoas se tem mais afinidade, com outras não, mas no final me parece que acabamos um pouco mais superficiais, sem nos colocar em nada muito intenso ou profundo.

Léon é uma cidade bonita, cheia de gente e bem antiga, com aquelas ruas cheias de histórias e construções seculares. A catedral foi a igreja mais bonita que entrei na vida, até onde posso lembrar, e pensei muito no livro Os Pilares da Terra, imaginando o Jack fazendo o cálculo das pilastras e abóbodas. O próprio áudio guia utilizava muitas expressões que li no livro como beleza, equilíbrio, jogo de pesos e contrapesos, entre outros.

Depois da igreja fomos fazer uma das coisas mais importantes quando se vem à Espanha: 

COMER CHURROS COM CHOCOLATE QUENTE MEU DEUS DO CÉU COMO ISSO É BOM EU QUERO TODO DIA POR FAVOR NÃO ACABA NUNCA!


Nossa, que saudade que eu tava dessa delícia! Fomos na chocolateria Valor, uma marca tradicional daqui, e realmente estava tudo muito bom, churros crocantes e fritos no ponto certo, chocolate no ponto ideal de cremosidade e intensidade, e aprendi com o Paco a primeiro passar a ponta do churro no açúcar, e depois banhar no chocolate.

Podia ir até Santiago comendo isso.

Depois começou a despedida do Paco, que foi meio fraude, porque ninguém conhecia bem a cidade. Tem uma coisa que os espanhóis normalmente gostam de fazer, que é ir de bar em bar comer tapas e tomar cañas, mas quando não se sabe bem onde é bom fica difícil. Fomos em um bar onde nos serviram uns camarões ao vapor bem honestos, e depois nos sentamos em outro onde comi as PIORES croquetas da minha vida, sem recheio, oleosas e sem sabor de nada. Mas a companhia era boa e estava divertido.

Se não fosse o italiano chamado mala, sobrenome vergonha alheia.

Sabe aquela pessoa inconveniente? Que aborda estranhos, principalmente meninas, o tempo todo e de forma constrangedora? Aquela pessoas que te interrompe quando você está falando, que introduz um assunto nada a ver na conversa, aquela pessoa que fala que vota na direita porque tem muito imigrante por aí? Então, apareceu um desses no nosso caminho.  Eu acredito que tudo seja aprendizado, e esse cara tem essa função de me mostrar que só entra e fica na minha vida quem eu quero, que eu não tenho obrigação de aceitar alguém que não me faça sentir bem. Claro, ao mesmo tempo, tem que se estar aberto a conhecer novas pessoas, quebrar velhos preconceitos e barreiras para crescer e tals, mas ainda assim com os limites que construímos a cada dia. 

Hoje de manhã, ao acordar, tentei sair com o Héctor de fininho sem ser percebido pelo italiano, que dormia, mas não deu muito certo, porque ele acabou acordando enquanto tomávamos café e foi conosco. Foi interessante sentir o velho conflito de interesses, comum a mim e a muita gente, entre ser educado e cortês, ou apenas seguir o que se está sentindo. Não acredito que na sociedade atual seja possível viver apenas de acordo com seus princípios, virando a cara para qualquer empatia ou preocupação com o outro (a não ser que se deixe de viver conforme as regras sociais, como o Alex Supertramp, e mesmo assim ele tinha uma boa relação interpessoal e era cordial), ao mesmo tempo, se preocupar em ser amigável e educado com quem não tem nenhuma importância para você, ou que você sabe que irá fazer você passar por situações chatas.

Esse é um equilíbrio muito sensível, principalmente para um libriano, mas estou cada vez mais pendente para o lado do foda-se, de dar valor e importância apenas à quem me faz bem. Parece óbvio, mas não é nada fácil.

A caminhada hoje foi mais tranquila em relação às dores, porém foi difícil pelo sol, pois foram 29km e saímos muito mais tarde do que o normal, as 8 da manhã. Chegamos em San Nicolas por volta das 13:30.

O hostel é uma delícia, com grama e árvores e, apesar de estar na beira da rodovia que cruza a cidade, tem um clima de paz muito gostoso. 

Fizemos nosso ritual básico e fomos ao mercado com as meninas e Jerôme para comprar coisas para comer. Fiz grão de bico na manteiga com cebola e alho, e depois coloquei chorizo picado no meio. Tão simples e tão gostoso! Hoje a noite vou fazer um macarrão quatro queijos e brigadeiros, pena que não tem forno para gratinar!

Hoje é 7 de setembro, dia da independência do meu país. Tentei cantar o hino nacional durante a caminhada e me embaralhei com a letra, o que foi uma pena, pois cantar o hino é uma coisa que eu gosto muito, vou ler várias vezes e tentar cantar com mais frequência, não sei porque mas acho importante. Parabéns Brasil, eu te amo.

LM



não é a cara da vergonha alheia?










segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Dia 17 - Caminho de Santiago - El Burgo Ranero

Tem momentos que você sabe que são especiais e dos quais você se lembrará por toda vida. Sem dúvida alguma estou vivendo muitos desses momentos aqui no caminho.

Além de tudo que já escrevi, sobre o caminho e sobre as pessoas, tem também os pequenos vilarejos que estamos atravessando diariamente, além dos nossos hospedeiros nos albergues, muitos voluntários ou proprietários que são do próprio vilarejo.

Essas cidadezinhas são como um tunel do tempo em vários aspectos. Em muitas temos as famosas igrejas que foram construídas quando o Brasil ainda nem existia, além de umas casinhas construídas de barro e madeira que parecem saídas de algum livro medieval do tipo que eu e minha mãe adoramos. Nesses lugares, aparentemente pouca coisa mudou, muitos nasceram e se mantém há séculos devido ao Caminho, a energia é muito forte, muito fluída de peregrinos que passam por ali sem parar, dia após dia, há muito e muito tempo. Quase todas nos oferecem uma fonte de água fresca e ao menos um bar para podermos comer um pincho de tortilla, um bocadillo ou apenas um café e uma desculpa para uma pausa. Imaginar uma vida nesses lugares me parece muito complicado, e por isso mesmo é um aprendizado observar as escolhas que cada um, com seu livre arbítrio, faz.

As pessoas que nos recebem e ali vivem são uma atração à parte. Em muitos albergues, como o que estou hoje, a pessoa passa por um processo de seleção e treinamento, paga sua passagem do país onde vive até a Espanha, e passa cerca de 2 semanas trabalhando sem ganhar um tostão num fim de mundo. Qual a motivação? Acredito que a mesma força que me faz caminhar todos os dias aqui. Essa excitação irracional que fazer o Caminho nos dá, a ânsia de conhecer novas pessoas, a possibilidade de ajudar pessoas que estão em busca das mais variadas respostas, e o aprendizado que esse contato pode nos proporcionar. No nosso caso, como peregrinos, é um aprendizado móvel, que acontece caminhando, com mudanças diárias, muitas vezes mudando de companheiros, ou mesmo estando sozinho diversos momentos. Já um hospedeiro está fixo olhando esse fluxo de pessoas e motivos diariamente passando. Acredito que a perspectiva faz com que se tenha uma experiência completamente diferente, talvez mais intensa, calma e profunda.

Uma pena que a condição de peregrino não permite um contato maior com a população dos vilarejos, que nos veem de certa forma como nuvens, como uns zumbis que chegam e vão dia após dia. Não há muito interesse nos peregrinos, os que trabalham nos serviços que usamos são corteses e educados, mas só isso. Acabamos interagindo apenas entre nós mesmos.

Hoje atingi o centro geográfico do caminho. Eu achei meio estranho, porque acho que já estou bem mais próximo de Santiago, acredito que chego em 2 semanas. Apareceu uma nova bolha no calcanhar, e a dor no pé virou uma sensação permanente. O Caminho não é fácil, é bom e estou gostando, mas cobra seu preço fisicamente.

Estou na parte externa de um bar lotado de velhinhos jogando baralho. Minha falta de compreensão me faz acreditar que a vida deles é tão chata e monótona que duvido muito que gostaria de chegar até esse ponto. Mas quem diz isso é minha arrogância de quem ainda viveu pouco. Cada fase da vida nos oferece possibilidades, prazeres e desafios, e apenas estando vivendo essa época é possível saber como se passa. 

MENOS JULGAMENTO, MAIS VIDA, MAIS COMPREENSÃO E MENOS ARROGÂNCIA!

LM






domingo, 4 de setembro de 2016

Dia 15 e 16 - Caminho de Santiago - Carrión de los Condes e San Nicolas del Real Camino

Os espanhóis são realmente muito legais!

Há três dias que estou num grupo de peregrinos espanhóis, e a sensação é de estar em família. Eles falam alto, fazem graça com tudo, expressam seus sentimentos de forma mais aberta... é realmente uma sensação familiar.

É bom perceber que pode-se encaixar em um grupo, ser aceito e se divertir. É uma sensação que após a Aitiara experimentei muitas vezes, até deixar de ser um trauma muito grande. A grande questão é conseguir ver como as pessoas são diferentes, como cada grupo social funciona de uma forma, e o quanto você pode se dar em cada situação.

Isso faz parte do interagir, de viver como ser social. Não sei se é algo natural para o ser humano viver ou pertencer a bandos, mas é assim que vivemos. A sensação de aceitação nos dá segurança, confiança e auto estima, mas em troca nos priva um pouco da liberdade, afinal cada grupo tem suas regras e seus códigos. Não se pode romper com isso sem sofrer as consequências, ou sair ou ser expulso normalmente.

O caminho está longo esses dias, com caminhadas de quase 30km ou mais todos os dias. Meus pés estão muito doloridos, principalmente os calcanhares. Não é algo forte demais, mas também não é uma coisa tão fácil de lidar, afinal são 6 horas aproximadamente para conseguir cumprir o objetivo diário.

Um dos que estão mais próximos de mim é o Hector, de Valência. Temos a mesma idade, uma diferença de 3 dias entre nossos aniversários, e muitos gostos em comum, música clássica, história política, livros (ele é fã de Ken Follet e de Pilares da Terra), e ao seu lado os quilômetros do caminho passam rápido. Ele tem um ritmo de caminhada um pouquinho mais forte do que o meu, portanto esse apressamento também deve estar contribuindo para essa dor mais forte nos pés.

Ele é hétero e gente fina, e estou aprendendo a lidar com essa situação diferente de uma forma saudável e sem torturas internas. Essa viagem está sendo um aprendizado de décadas nesse tema, e tenho certeza de que será muito útil para mim ao longo de todo o período sabático.

Há também o Paco, que é um menino de 21 anos, sim, eu ainda tenho menos de 30 mas chamo quem tem 20 de menino, que me lembra muito de como eu era nessa idade, pois é muito independente, divertido e extrovertido, do tipo que faz mil brincadeiras o tempo todo, sorriso fácil e que gosta de ver os outros bem. 

Estou hoje num albergue muito agradável. Como cada dia é um lugar diferente, os confortos como água quente, cama e wi-fi se tornam coisas menores. Aqui é tipo um albergue e restaurante, com pessoas gentis e pelo que falaram a comida é feita aqui, daqui meia hora vou comer e descobrir. Chegamos o Hector e eu e estava terminando um almoço de casamento, e a família nos mandou servir um par de pintxos, tortilla e camarões, foi muito simpático e depois a camareira nos disse para nos sentir em casa, como não ficar bem depois disso?

LM








sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Dia 15 - Caminho de Santiago - Boadilla del Camino

As coisas na vida acontecem.

Simples assim. Você faz a sua parte, acorda, trabalha, larga tudo, viaja, trabalha de novo. As coisas na vida não são lógicas, apenas acontecem.

Você decide que as coisas com base em quais critérios? Normalmente é uma média entre a razão e o desejo, entre o plausível e o que você sonha. Os sonhos são difíceis de realizar por vários motivos, inclusive porque são egoístas. Nossos sonhos contemplam apenas nosso ponto de vista, nosso desejo, nos coloca como o centro do mundo e das vontades. Mesmo quando incluem outros, eles agem e escolhem as coisas de acordo com as nossas vontades.

Por isso é tão difícil realizar nossos sonhos egoístas. Porque temos essa dificuldade em aceitar que nossa vida é centrada em nós mesmo. É feio admitir isso, é considerado errado por quase todas as sociedade e convenções sociais viver exclusivamente de acordo com a sua vontade.

E isso é para todos. Até mesmo a minha decisão, apesar de parecer egoístas, deixar namorado e viver longe da família, leva em consideração diversos critérios que consideram sim as opiniões das pessoas. Para ser franco, é difícil até mesmo entender quais seriam os meus sonhos se levasse em consideração apenas a mim mesmo.

Naquela história "Into the Wild", que agora estou lendo o livro, o rapaz que decide viver exclusivamente de acordo com sues critérios, sem fazer as considerações sociais nem concessões de seus princípios, é considerado um lunático, um estranho, inclusive por mim. Não estou conseguindo prosseguir com a história porque não consigo concordar com seu extremismo. Para mim, não há razão para ser tão passional, para deixar as pessoas tão impressionadas com a sua atitude.

Mas e se ele estiver certo?

Se tirarmos cem porcento a capa social, a família, amigos, opinião das pessoas, o que somos? O que faríamos da nossa vida? Quem seríamos nós? Se não tivéssemos que agradar ninguém com postagens de fotos, com sorrisos, com satisfação das nossas ações, o que restaria?

Não tenho a menor ideia.

Estou tão envolvido com o social, com meus amigos, com as pessoas que me rodeiam, que não sou capaz de ser um Lucas sem verniz. Tampouco sei se gostaria de experimentar esse Lucas, quem é esse cara? Será que eu seria esse anti social igual o Alex Supertramp? Será que seria eu mesmo? Será que eu viraria padre ou mesmo mudaria de sexo?

O autoconhecimento vai muito além de um livo ou vídeo de autoajuda. Conhecer a si mesmo pode ser um processo intenso e doloroso, e obviamente também pode ser libertador, tudo ao mesmo tempo. Não levar em conta o que os outros pensam pode afastar quase todos, mas também deixar claro quem são os que valem a pena.

Aqui no Caminho, toda vez que um outro peregrino começa a conversar com você, você tem a oportunidade de ser o que quiser, grosso e mal humorado, palhaço e gente boa, sincero ou mentiroso, de direita ou de esquerda. Você é uma página em branco, aquela pessoa não vai fazer a menor diferença na sua vida, não há como utilizá-lo. Geralmente sou o mesmo com quem meus próximos estão acostumados, faço piadas, sou curioso, procuro manter a pessoa animada, o de sempre. Porém hoje comecei a me questionar esse assunto, o quanto vale a pena tentar interagir com alguém, será que não seria mais interessante usar essa oportunidade para ir mais além?

Não sei.

LM

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Dia 13 e 14 - Caminho de Santiago - Burgos e Hontanas

Foram 2 dias de caminhadas intensas, ontem 22km, e hoje 30km.

Ontem caminhei sozinho, uma parte do caminho foi bem bonita, porém ao começar me aproximar de Burgos caminhei quase 8km numa área de estrada e oficina de caminhões, que quebrou todo o clima do Caminho e fez o trajeto ficar imenso.

Entrar numa cidade grande com um bastão e uma mochila nas costas faz você se sentir um alienígena! Foi uma sensação estranha, pois estou acostumado a entrar nas cidadezinhas que praticamente vivem dos peregrinos, onde tudo gira em torno do Caminho. Foi legal voltar ao mundo real para sair um pouco dessa bolha!

Depois do ritual banho e lavar roupa fiquei pensando, tenho cerca de 5 horas livres, ou seja, não dá para conhecer nenhuma cidade do jeito que eu gosto nesse tempo, então resolvi apenas dar uma volta. Como era dia de facebook (decidi que vou usar às quartas e sábados), sentei num café que ficava num parque linear, pedi uma cerveja e fiquei um tempão vendo as atualizações e comentários. Foi muito bom por dois motivos, o primeiro saber notícias dos meus amigos, e o segundo ver que não tinha nada de realmente importante que fizesse com que eu precisasse usar mais vezes o face por semana. 

EU POSSO VIVER SEM ISSO! VIVA!

Pesquisei um pouco mais sobre as opções de apartamentos em Praga. Vou gastar um dinheirão para passar 10 dias sozinho por lá, mas acho que vai valer a pena. Já sinto um pouco a falta de ter privacidade, e sei que isso vai aumentar. Acho que vou fazer um esquema do tipo, apartamento inteiro em Praga, quarto inteiro em Budapeste e hostel na Romênia. Assim dou uma diluída nos custos e tenho várias experiências diferentes.

Nos aplicativos de pegação, nada de novo, nenhum cara interessante, nada que valesse a pena eu perder muito tempo. O canadense que também é peregrino e tinha um papo bom preferiu pegar um busão para Leon. Muita gente faz isso, pois economiza ao menos uns 7-8 dias de caminhada pela Meseta Espanhola, uma espécie de planalto que eles tem por aqui, com caminhadas em terrenos bem planos e sem muitas árvores. Pelo que eu li, é uma das partes mais mágicas do Caminho, e eu não quero perder isso de jeito nenhum!

Em Burgos portanto não vi muita coisa. Rezei na catedral e numa igreja bonita que ficava ao lado, e à noite saí com o casal fofo mais um grupo de italianos para comer tapas. Fomos num lugar excelente, com tapas muito bons e ótimo preço, daqueles lugares que fazem o dinheiro valer a pena e te deixam feliz.

Hoje cedo conheci uma brasileira chamada Daniela, que é do ABC e mora no Rio há muitos anos. Conversamos por 25 QUILÔMETROS DIRETO. Tipo, desde a Luciana que eu não conversava em português com alguém, portanto tirou o pai da forca com a Daniela. Foi muito bom, falamos sobre milhões de coisas legais, contamos nossa história um para o outro e tals. Mas tem uma coisa que ela me contou que eu fiquei de cara.

Ao se hospedar num hostel de um brasileiro que aparentemente é bem conhecido entre meus conterrâneos, o Acácio, a Daniela descobriu que a galera ligado em energia e espiritualidade divide o caminho em 3 etapas. Entre SJPP e Logroño é quando você tem contato com a sua infância (lembra de quando eu falei que segurei na mão do Lucas pequeno?), entre Logroño e Burgos seria o contato com a adolescência, e foi justamente nos últimos dias que pensei muito na minha época na industrial, nos meus planos de futuro e tudo mais. E que de agora em diante é a fase de entrar em contato com a minha vida adulta. Vamos ver o que acontece daqui para frente!

O final da caminhada de hoje foi bem duro. Os últimos 5km foram no sol da uma da tarde, num céu sem nuvens e com a temperatura na faixa dos 30 graus. Eu não iria fazer esse trecho, tinha pensado em ficar num albergue na altura do km 26 e passar um dia mais isolado e de boa. Mas eu gosto do grupo de amigos que tenho feito, e decidi encarar os último quilômetros. Faltando 3km acabou minha água, o que é bem comum com todo mundo nesse trecho, pois não há fontes, e faltando 2km eu estava cansado e comecei a cantar Ru Paul e brincar com meu bastão para esquecer do calor. Quando eu vi a torre da igreja, fiquei realmente aliviado, pois estava ficando bem difícil. 

Nem sai do hostel hoje, pois após o ritual básico e do descanso já eram mais de 4 da tarde. Juntei a grana da galera, 3 euros cada, e comprei as coisas para cozinhar. Fiz um macarrão com molho de tomate e chorizo, que ficou bem simples e gostoso, e comemos e bebemos muito vinho juntos. Eu adoro essa parte. É uma comunhão entre pessoas que estão na mesma vibe, e isso é muito legal. Também fiquei orgulhoso ao ver que fiz a comida para 14 pessoas em menos de 1 hora (54 minutos). Me sinto feliz percebendo que sou um bom cozinheiro.

Também gastei muito pouco hoje. Nos últimos dias havia gastado uma média de 30 euros por dia, e hoje gastei menos de 15 euros.

A luz do pôr do sol está refletindo nas camas aqui do quarto. É um laranja clarinho e intenso, enquanto o resto do quarto está na penumbra. As pessoas falam em vários idiomas ali fora, enquanto aqui dentro eu só ouço o som dos meus dedos nas teclas. A sensação é plena, é uma paz gostosa, completa. Nesses momentos sei que sou feliz.

LM